21 março 2010

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Não é Justo!

Hoje, o Ctrl+c do texto de Fal Azevedo.

Há, claro, os que nos amam. São os caras que vão sofrer ao nos ver sofrendo. São os caras que dizem “se eu pudesse, tirava a sua dor com a mão” (acho linda essa expressão). São os caras que nos pegam no colo e nos levam pra jantar no indiano e no português e nos levam ao cinema e para passear de carro e mandam e-mails engraçados e doces sobre a deles (?) com amizade com Caetano Veloso e trazem filmes pra nossa casa pra ver conosco, pezinhos enrolados nos nossos, tigela de pipoca. Talvez eles não entendam a nossa dor, nem sua profundidade, nem seu sentido, nem porque dura tanto e nem nada, mas eles nos amam, ponto.

Há os que já passaram pelo que passamos. Eles entendem. Às vezes eles nos amam, às vezes não. Mas esses caras tem um mover de cabeça solidário, ele estendem. Eles já estiveram aqui onde estamos. Os conselhos deles geralmente são os melhores e seus abraços são os que nos tomam por inteiro, porque eles sabem.

Há os que, nos amando ou não, acham um saco. Toda essa dor, todo esse nhenhenhem, lágrimas, lencinhos, fungadelas. Eles não tem paciência, eles não entendem o porque de tanta onda, eles acham que deveríamos botar uma roupa bonita ir ao show do Rio Negro e Solimões com eles.

Mas há outros. Há os que ao se depararem com a nossa dor, tem a própria dor revelada. A dorzinha deles tão adormecida, soterrada por caixas de picles e cadeiras de praia, por revistas velhas e entulho da última reforma, fareja a nossa dor, tão clara, arejada, revelada. E jogando longe tudo o que cobria, exige o que é dela, urra, atira vasos na parede. Faz o que toda dor deveria fazer, ela dói. E o dono dessa dor, desamparado e surpreso, inevitavelmente vai se voltar contra nós. Nós, que com nossa dor, despertamos a dele. Nós, que com nossos horrores particulares, acabamos por jogá-lo no abismo. E ele fica doido da vida. Vem para cima de nós, o dono dessa dor recém-desperta, nós o angustiamos. Nós o deixamos num estado que ele chama de “desarmonioso”. A culpa é nossa e não dele, que soterrou o próprio sofrimento. É nossa dor que o ‘deixa mal’, não a dor dele, trancada num porão frio e úmido, há tanto, tanto tempo. Como é que ousamos sofrer em público? Chorar com a boca quadrada no meio da rua, ficar com os olhos marejados na frente de vendedores, mostrar fotos dos que se foram para o gerente do banco, quando ele, modesto, limpo, cumpridor de deus deveres e mantenedor da ordem e da lei, passou todo esse tempo quieto, controlado, cuspindo frases prontas do picaretíssimo mundo motivacional, lendo Lya Luft, divulgando power-points inspiracionais e tecendo conceitos incrivelmente vazios sobre a vida e suas filosofias? Nossa falta de limites, nossa declaração pública sobre a vida e seus estados, nossa absoluta falta de pudor frente ao que dilacera, altera o parco equilibilío, o frágil equilíbrio, o nada-equilíbrio no qual vive há tanto tempo nosso amigo. E assim, a miséria da vida dele vem à tona, junto com seus medos, sua falta de capacidade para tomar decisões, seus pudores – coisas aliás, comuns a todos, todos, todos nós, mas ah, as dele estavam tão bem trancadinhas. E nós, com nossa dor, não tínhamos o direito de cutucar nada disso. ‘Não é justo! Eu não queria voltar a sentir tudo isso! Eu odeio vocês’, ele brada. Coberto de razão.

“Conclusão: a própria dor deve ter sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor.”

Paulo Mendes Campos

Bjos aos amiguinhos...

Um comentário:

  1. Oi Carlinha,

    Tem selinho novinho em folha pra vc la no lov Lilac!!!

    Bjs
    Van

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Olá, amados! Vamos as regras...
Não tem regras, aqui você fala o que quiser...
Só leia o post ou assista o vídeo antes ;)
Lembrando que eu respondo os comentários, com muito carinho, aqui mesmo no blog, volte para dar uma espiadinha.

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